segunda-feira, 9 de março de 2009

Menina, Amanhã de Manhã (o Sonho Voltou)

Tom Zé

Menina , amanhã de manhã
quando a gente acordar
quero te dizer que a felicidade vai
desabar sobre os homens, vai
desabar sobre os homens, vai
desabar sobre os homens.

Na hora ninguém escapa
de baixo da cama ninguém se esconde
e a felicidade vai
desabar sobre os homens, vai
desabar sobre os homens vai
desabar sobre os homens.
Menina, ela mete medo
menina, ela fecha a roda
menina, não tem saída
de cima, de banda ou de lado.
Menina, olhe pra frente
menina, todo cuidado
não queira dormir no ponto
segure o jogo
atenção (de manhã)
Menina a felicidade
é cheia de graça
é cheia de lata
é cheia de praça
é cheia de traça.
Menina, a felicidade
é cheia de pano,
é cheia de pena
é cheia de sino
é cheia de sono.
Menina, a felicidade
é cheia de ano
é cheia de Eno
é cheia de hino
é cheia de ONU.
Menina, a felicidade
é cheia de an
é cheia de en
é cheia de in
é cheia de on.
Menina, a felicidade
é cheia de a
é cheia de e
é cheia de i
é cheia de o.

sábado, 7 de março de 2009

Tua pele mais profunda

Júlio Cortázar

"Cada memória apaixonada tem suas madalenas e a minha - é o perfume do tabaco claro que me devolve a tua noite espigada, à lufada da tua pele mais profunda.
Não o tabaco que se aspira, a fumaça que reveste as gargantas e sim aquela vaga equívoca fragância que o cachimbo deixa nos dedos e que em algum momento, em algum gesto despercebido, sobe com seu látego de delícias para encabritar a lembrança que tenho de ti, a sombra de tuas costas contra o branco velame dos lençóis. "

...

domingo, 1 de março de 2009

Tinindo trincando

Por Viveca Santana

Alguns passos ébrios pelo Rio Vermelho, as mãos passando pelas paredes ressacadas pelo sol, sons fora do tom, a voz dela não saía mais.
Já eram quase 4h da manhã e ela incansável continuava, andando com seu All Star surrado de tempo, tropeçando nos próprios passos e olhando tudo em volta.
Para ela era tão bom viver intensamente assim, sem a tonalidade das vozes, fora do ar por instantes, sons , toques que tomavam o corpo todo.
Não lembrava o que tinha que fazer amanhã - certamente acordaria de ressaca, andaria atrás de um copo d´água e um comprimido, derrubando tudo e voltaria para cama.
Alguém veio falar com ela, tocou seu ombro (não queria que a vissem naquele estado, baixou o rosto). Não teve vontade de responder, a viagem estava ótima sem falar, sem a realidade que aquela quantidade de coisas exigia, um monte de espaços que ela estava pulando e que ninguém entenderia.
-Quem era mesmo ? perguntou a si mesma.
Viu que não tinha que se misturar.
Não conseguiu traduzir uma linha do que pensava, as frases surgiram descompassadas e ela sabia que não percebiam o que queria dizer.
Envergonhou-se.
Que a deixassem só de novo.
Calou mais uma vez, franziu a testa, acendeu o último cigarro da carteira, pediu mais uma cerveja e continuou a olhar pro mar.
Não se sentiu nem um pouco decadente, era bom sobreviver ali : barquinho lá longe, gente lá longe, um menino perdido na noite com um catavento nas mãos, longe, longe.
Tudo tinha uma graça particular que a rotina jogava fora.
O mundo podia acabar que ela não tinha mais nada a dizer.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Final de semana em Salvador


[Ando em círculos
Paro em círculos
Espero em círculos_ ]

[Fumo em círculos
Solto fumaça _ ]

[A porta continua fechada_ ]

Natimorto, Lourenço Mutarelli.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Conto desnecessário

Por Viveca Santana

Saíram os três naquele carro prateado, música alta para entorpecer, Sílvia com seu rosto tranqüilo de mulher moderna-amadurecida, Paulo com seu olhar crítico nos passantes da rua, (meio criador de cordel, meio personagem sertanejo), Aracy com olhar perdido, os dedos recebendo o vento da noite, corpo quase pra fora do carro, avessa ao que pudesse ocorrer.

Sílvia só queria amar, o amor que vinha daqui há dias, pensava na garrafa de champanhe que queria comprar, nos dotes que daria, nos olhares que receberia, no amor puro vindo de longe. Adorava sentir o cheiro de fotossíntese que as plantas faziam no fim de tarde.

Paulo era dado a discussões rápidas. Semântica, linguística, fonética, tudo se tornava miúdos e papos intensos, com direito a percepções etílicas e tapinhas nas costas.
Era um rapaz que levantava dúvidas e gargalhava sempre, queria criar a polêmica. Simples, mas complexo nos assuntos cabíveis, peleador nato das conversas filosóficas.

Aracy só queria receber o vento nos dedos. Tentava pegar parte dele e nunca conseguia. Gostava de luzes na sua retina, do gosto seco que a cerveja deixava nos lábios, a falta de lucidez e a possibilidade de enxergar tudo com as digitais catando o vento teimoso.

...
Continuaram os três pela cidade, amando, complexando de maneira simples a vida e tocando a brisa. Seguiram na noite de sábado, amigos, com suas minúcias e sem mais nada pra contar.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Uma história de borboletas

"É assim mesmo - eu disse. - O mundo fora da minha cabeça tem janelas, telhados, nuvens, e aqueles bichos brancos lá embaixo. Sobre eles, não te detenhas demasiado, pois correrás o risco de transpassá-los com o olhar ou ver neles o que eles próprios não vêem, e isso seria tão perigoso para ti quanto para mim violar sepulcros seculares, mas, sendo uma borboleta, não será muito difícil evitá-los: bastará esvoaçar sobre as cabeças, nunca pousar nelas, pois correrás o risco de ser novamente envolvida pelos cabelos e reabsorvida pelos cérebros pantanosos e, se isso for inevitável, por descuido ou aventura, não deverás te torturar demasiado, de nada adiantaria, procura acalmar-te e deslizar para dentro dos tais cérebros o mais suavemente possível, para não seres triturada pelas arestas dos pensamentos, e tudo é natural, basta não teres medos excessivos - trata-se apenas de preservar o azul das tuas asas."
Caio Fernando Abreu.