domingo, 21 de março de 2010

Ponto Morto

Por Viveca Santana

Submersa em alguns litros d água, via peixes de todas as cores vestindo seu corpo como um véu líquido, devassando sua pele branca.
Olhos abertos no turvo, bolhas surgiam expiradas do peito, tensas e envoltas numa mistura de leveza e peso.
Leves suspiros guardados sopravam de um pulmão cinza, de mulher enjaulada em vícios, frases não ditas e noites mal dormidas.
Na superfície deixavam-se levar pela brisa quente, destino de todos os sonhos, que se partiam fácil como plástico-bolha, em uma mania adquirida em dias de carências de sofá de casa, maços de cigarro e café requentado.
O corpo desejava a terra firme, a areia seca, a angustiosa ordem que virava um musical com jeito de Aznavour, impregnado de saudade e expectativas de recomeço.
Mas enchia de medo a ideia árdua de voltar.
Assim, teimava entre a superfície e o retorno pro fundo, desafiando a gravidade, indecisa entre a proteção da água e a pungência colorida do sol.
A dúvida a estabilizava em ponto morto entre um mundo e outro, doendo costelas e peito, esfriando o estômago, fazendo ranger dentes com a força insistente da indecisão, de quem se acostumou com a inércia e o abandono.
Voltar doía e cansava tanto, que pensava em desistir.
Devia deixar flutuar livre e de braços abertos ou descer ancorada de volta pro fundo, casa de suas ausências, casa de desejos sepultados?


Para ler ouvindo “Bookends, Simon & Garfunkel”.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Cruzando o paraíso

Xico Sá

Por ti chorei lágrimas de rodoviária, lágrimas com poeira de estrada perdida, lágrimas e poeira que viraram maquiagem de lama, tijolos d´alma, emendei lotações e fronteiras, gastei botas, máscaras, joelhos... e contei passos de crimes & castigos, por ti esperei em hotéis baratos do centro, porta aberta, mão no coração, faca no peito, por ti bebi como uma mosca caricata de boteco, fiz lirismos chinfrins em guardanapos, sempre começando assim “por ti” etc e algum verbo que representasse um esforço da porra ou o mais puro exibicionismo de uma dor tão gasta que nem já combinava mais com os meus drinques caubói nem muito menos com as minhas elegantes vestes rotas da mendicância, ah, o seu orgulho não vale uma canção triste de Roy Orbison.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Die, Die My Darling



Eu disse que voltaria, que escreveria alguma coisa, mas não posso deixar de comentar o show do Metallica aqui no Brasil, postando uma das minhas músicas preferidas (além de Master of Puppets, Fuel, One e Enter Sandman).
Não irei, mas certamente me arrependo quando penso que será um dos melhores shows de 2010.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Tô Voltando...

Composição: Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós

Pode ir armando o coreto
E preparando aquele feijão preto
Eu tô voltando

Põe meia dúzia de Brahma pra gelar
Muda a roupa de cama
Eu tô voltando

Leva o chinelo pra sala de jantar
Que é lá mesmo que a mala eu vou largar
Quero te abraçar, pode se perfumar
Porque eu tô voltando

Dá uma geral, faz um bom defumador
Enche a casa de flor
Que eu tô voltando

Pega uma praia, aproveita, tá calor
Vai pegando uma cor
Que eu tô voltando

....

Diz que eu só volto amanhã se alguém chamar
Telefone não deixa nem tocar
Quero lá, lá, lá, ia, porque eu tô voltando.

domingo, 25 de outubro de 2009

Vazio

Por Viveca Santana


Por dentro um vazio cerrado, as cortinas entreabertas com uma cor de carne exposta. Respirando, o vazio saia em partes, abafado e com um som de assovio, saía e voltava a ser vazio lá dentro, não tinha dor, não tinha amor, não tinha nada.
O teto que olhava com as mãos sobrepostas no peito, ainda era descascado e sem a tinta que ela já devia ter providenciado faz tempo: tinha mofo e algumas formigas seguindo seu caminho infinito.
A casa era rarefeita com o ar que ela soprava todas as tardes e, suspensa naquele calor escaldante dela e do quarto, ouvia os barulhinhos de si como cigarras interrompidas.
O coração batia mais forte, a respiração empurrava o corpo tenso, afundava comprimindo a barriga magra.
O silêncio persistia, repetido, como se juntasse cacos espalhados e enchesse suas mãos, que antes só guardavam lembranças e retalhos dos outros.
Tinha que entender a desordem, endireitar os cabelos, espantar as cigarras pro sol. Andar pra longe que nem as formigas.
Pensou em como suportou a felicidade sem doer e como conseguiria arrebatar a tristeza encravada em sua pupila. A força do tempo já a empurrava depressa pros 30.