quinta-feira, 7 de julho de 2011

Para uma avenca partindo

"Uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viver as superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que eu quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos contas, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa de garganta que falo, é de uma outra de dentro, entende? Por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço....[...]Não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender."

Caio Fernando Abreu.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Terra

Quando eu me encontrava preso
Na cela de uma cadeia
Foi que vi pela primeira vez
As tais fotografias
Em que apareces inteira
Porém lá não estavas nua
E sim coberta de nuvens...

...

Eu sou um leão de fogo
Sem ti me consumiria
A mim mesmo eternamente
E de nada valeria
Acontecer de eu ser gente
E gente é outra alegria
Diferente das estrelas...

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

...

Por Viveca Santana


O acaso era uma das coisas comuns no dia a dia dela, surgia em visitas violentas e sem avisar, escondia-se em momentos de preguiça e reaparecia com sua vontade de desorganizar tudo.
Já havia se acostumado com as surpresas que a vida pregava e algumas vezes, diante das repetições, já sentia os acontecimentos, com uma predestinação ou um convite à visão que algumas vezes não queria ter. Finalmente algo acontecia de diferente e desde o início ela sentia os sinais, mas alternava os caminhos, fugindo da encruzilhada que o destino impunha como resposta à direção correta que se deve tomar e seguir em frente. Às vezes tomava o rumo de descampados, os caminhos mais longos, íngremes, difíceis e cheios de espinhos, para evitar a normalidade das coisas e acreditando evitar lágrimas, sim, como se pudesse.
À sua maneira, fugia dos encontros com o sofrimento, cerrando o seu coração com um cadeado sem chave, impondo suas vontades, traçando seus caminhos numa independência dolorida e criando histórias para parecer que as rédeas da vida estavam em suas mãos.
Aí o acaso aparecia, e com os pés molhados, destruía seu castelo de areia e a obrigava a recomeçar outro castelo, outro sonho, outra história, como se tudo tivesse uma frivolidade infinita, como se tudo fosse muito fácil reconstruir.
Só que dessa vez o acaso veio e a empurrou forte enquanto estava em êxtase e atida em coisas novas. Tornou a vida dela uma grande piada, um encontro que atravessou às cegas um mar infinito e acabou num lugar que ela já conhecia sem nunca ter ido, com uma pessoa que nunca tinha visto de perto, mas sabia que existia por ali.
Era como se a vida dela fosse metaforizada em um quebra-cabeças, uma colcha de retalhos, que alguns pedaços ela tinha perdido por aí ou tomaram dela e agora ela retomava o direito de encontrar aos poucos, juntando com dificuldade, o que a vida teimava em mostrar e ela na sua cegueira não enxergava.
Agradecia ao acaso por agredi-la tão docemente e ter mudado sua história.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Agora

Por Viveca Santana

Passos cheios de gratidão, de uma valentia inconsciente, largos e livres atravessam o inesperado. Cabelos agora sem medo de chuva, coração pulsando forte e desatento, tudo impregnado de uma insegurança que lembra os primeiros passos da infância, o primeiro passeio de bicicleta.
O frio que antes amedrontava, agora aquece a vontade de sentir-se em casa.
Cresce uma gratidão pela companhia de si mesma, pela sua simpatia, pelo riso solto, pelo perdão das coisas de antes, pela vontade de ir, ir simplesmente, com ganas de desatar os nós que a vida de antes impunha.
Ganas de se entregar a si e seguir, enfrentando pedras, quedas, perdas. Seus passos agora são mais valentes, apaixonados e felizmente agora, solitários.
As lágrimas secaram, os demônios seguiram de férias para um lugar com sol e o que segura a sua mão e aperta com força é a ânsia de caminhar sem rumo, deitar no fim do dia com o corpo abraçado pelas dores da caminhada e da deliciosa incerteza, de seguir e não pensar no amanhã, por enquanto.