quinta-feira, 15 de maio de 2008

Ítaca

Quando você partir, em direção a Ítaca,
que sua jornada seja longa e repleta de aventuras, plena de conhecimento.
Não tema Laestrigones e Cíclopes nem o furioso Poseidon;
você não irá encontrá-los durante o caminho, se você não carregá-los em sua alma, se sua alma não os colocar diante de seus passos.
Espero que sua estrada seja longa.
Que sejam muitas as manhãs de verão, e que o prazer de ver os primeiros portos traga uma alegria nunca vista.
Procura visitar os empórios da Fenícia e recolha o que há de melhor.
Vá as cidades do Egito, e aprenda com um povo que tem tanto a ensinar.
Não perca Ítaca de vista, pois chegar lá é o seu destino.
Mas não apresse os seus passos: é melhor que a jornada demore muitos anos e seu barco só ancore na ilha quando você já estiver enriquecido com o que conheceu no caminho.
Não espere que Ítaca lhe dê mais riquezas.
Ítaca já lhe deu uma bela viagem; sem Ítaca, você jamais teria partido.
Ela já lhe deu tudo, e nada mais pode lhe dar.
Se, no final, você achar que Ítaca é pobre, não pense que ela lhe enganou.
Porque você tornou-se um sábio, e viveu uma vida intensa, e este é o significado de Ítaca.

KONSTANTINO KAVAFIS - poeta grego (1863-1933) e presenteado por uma das minhas amigas mais queridas.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Júlia

Por Viveca Santana

Júlia era uma criança com olhos grandes e poucas palavras. Não via muita importância em dizer muito, era muito cansativo falar, mesmo que fosse pouco. Também não era bonita.
Assustava até. Tinha traços levados para a idade e hábitos de velhice.
Os pais ficavam sentidos por não poder apresentá-la tanto, exibir os seus dotes infantis, afinal as crianças existiam para isso : para serem exibidas aos passantes. Exaltaram-se por muito tempo com aquilo. Tinham uma pequena que não se misturava às outras, que sentia-se feliz em estar só, em não fazer parte do mundo.
Na verdade, se preocupavam com o que todos falavam dela: por que havia nascido daquele jeito, reclusa, com aqueles olhos grandes que pareciam engolir o mundo, sem nada pra dizer, sem fazer amigos, quieta pelos cantos.
Tentaram terapias, novenas longas, viam um possível autismo, mudaram de escola algumas muitas vezes, choraram muitas noites, a mãe preocupada com o falatório dos vizinhos e parentes - a sua rotina afetada e impaciente com os hábitos de Júlia.
Falavam dos seus olhos inquisitores, de crítica. A solução era desviar os olhos, destacar a sua falta de importância. Os pais decidiram por deixá-la em casa, nos jantares e reuniões familiares. Seria mais conveniente e evitariam tantas piadas e explicações.
Ela com as bonecas, os livros e a tv, não levantariam tantas discussões - os encontros com os tios não se tornariam situações de vergonha interminável, de comparações com os sobrinhos normais. Mas Júlia não seria desse jeito se quisesse.
Tornou-se mais um móvel naquela sala grande porque nunca havia sido o que queriam, nunca recebeu o carinho dos outros por ser diferente. A sua existência inconstante seria algo triste diante da normalidade dos outros.
Certamente Júlia seria mais uma, que não sobreviveria sozinha com aqueles olhos grandes que incomodavam aos normais e aos seus.
Era mais uma criança que tinha que ser o que os pais almejavam.
E não era.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Antropofagia

Por Viveca Santana

Da minha parte nunca haverá raiva de nada. Nem da dúvida, nem da espera, nem do excesso de vontade.
É como se as coisas tivessem que ser. Tinha que suportar muita coisa, ainda. Esperar.
Meu mundo não é esse, meus dias estão contados nessa página amarela, sem graça. Na letargia viciada desse lugar.
Não que a vida reserve coisas espetaculares e grandiosas. Ou uma bicicleta verde para eu sair por aí pedalando com uma cestinha cafona cheia de flores. Ou a sorte de passar o dia com os pés na água, olhando pro nada, ouvindo alguma música simples. New Order, talvez. Ou Bob Dylan e sua gaita triste. Ou talvez reserve tudo isso, bem longe. Ou não. Ou sim.


- Que pessimismo você tem - alguém me disse dia desses.
- Você quer muito e tem tanta coisa aqui, olha como eu sou feliz - prosseguiu de maneira tão otimista, que enjoava. Era um Dalai Lama de livraria, provavelmente. Alguém com a aquele vidinha normal - a graça era tudo estar no seu lugar, não sair do lugar, não passar dos limites, no lugar de sempre.
E eu continuava ouvindo aquilo tudo de muitos outros altruístas, aceitando.
Contando os dias no calendário - ele todo riscado de vermelho forte, quase me mandando embora:
- Vai, querida. Anda !

domingo, 30 de março de 2008

Cacos

Por Viveca Santana

Era como um vidrinho desses que tinha reconhecido na casa da avó.
Daqueles que ficam na estante mais alta, para os pequenos não se aventurarem a pegar.
Todos que chegavam naquela casa elogiavam o vidrinho, como era bonito de olhar ele, lá em cima, tão longe das mãos, difícil de tocar.
Ninguém podia dizer uma palavra inconveniente, um desatino, um defeito, um erro dele – o tal vidrinho ía rachando, rachando.
Já estava bem trincado nos tantos anos de existência, cansado de não ter a atenção que merecia, lá em cima na estante. Só sendo elogiado de longe.
Mas era um cristal tão colorido e cheio de prismas que ninguém nunca percebia o quanto estava frágil, perto de partir pra sempre. As pessoas também não se importavam com isso, se quebrasse, era só trocar por outro mais bonito, talvez um daqueles que avistaram numa loja nova, com promessas de quebrar dificilmente e também mais novo aos olhos.
De certo, ninguém pararia no tempo para colar os caquinhos do vidro.
Não ficaria bonito como antes.
Havia muita coisa para se fazer, muitas responsabilidades mais importantes.
Tornava-se mais fácil juntar os caquinhos coloridos pra longe e jogar fora. Viver mais tranquilamente sem a possibilidade de cortar os pés ou de tê-los incomodando os olhos.
E a vida seguia adiante, com um novo cristal lá na estante, novo e mais bonito, talvez.

sexta-feira, 21 de março de 2008

As ondas.

"Ele me esquecerá. Deixará sem resposta minhas cartas, que ficarão em meio a suas espingardas, seus cães. Eu lhe mandarei poemas, talvez ele responda com um cartão-postal. Mas é por isso que o amo. Proporei um encontro - debaixo de um relógio, ou numa encruzilhada; esperarei, e ele não virá. É por isso que o amo. Ele se afastará da minha vida, esquecido, quase inteiramente ignorante do que foi para mim. E, por incrível que pareça, entrarei em outras vidas; talvez não seja mais que uma escapada, um simples prelúdio."
Virgínia Woolf.
* último post copiado e encontrado em tantas coisas que tenho lido aos montes. Os próximos textos espero que sejam meus, exilados da preguiça.

sábado, 15 de março de 2008

Trecho

"Sabe?
Eu procuro agora, de preferência em certas horas, os lugares em que um dia fui feliz, feliz à minha maneira, e ali tento com minha imaginação imprimir ao presente a forma do passado irrevogável, ou também representar mentalmente o passado; e ali me ponho muitas vezes a dar voltas sem finalidade, como uma sombra, pelas ruazinhas de Petersburgo.
Neste instante recordo, que faz um ano que andei pela mesma calçada, e nesta mesma hora, tão só e triste como hoje. E recordo que meus pensamentos de então eram igualmente tristes como os de agora, e apesar de que também o passado não seja melhor, parece-nos que o foi, como se tivéssemos vivido mais placidamente, e não tivéssemos tido sobre a alma essa vaga melancolia que agora nos persegue...que não sentimos esses remorsos de consciência, que nos atormentam de modo tão doloroso e incansável, e não nos deixam gozar de um instante de repouso nem de dia, nem de noite.
E a gente abana a cabeça e murmurra "Como passam rápidos os anos!" e a gente volta a perguntar a si mesmo: "Que fizestes dos teus anos? Onde enterrastes o teu tempo?
Vivestes ao menos? Ou não?" "Olha - dizemos para nós mesmos - olha que frio faz no mundo. Passarão ainda alguns anos, e então virá a espantosa solidão, virá com suas muletas a velhice trêmula, trazendo consigo a tristeza e a dor. Perderá suas cores o teu fantástico mundo, murcharão e morrerão seus sonhos, e como a folha amarela da árvore, igualmente se desprenderão de ti..."
Noites Brancas, Fiódor Dostoiévski

quinta-feira, 6 de março de 2008

Santa Ceia

Aconteceu na primeira reunião ministerial de 2008. Depois de infinitos “nunca na história do mundo”, LULA, finalmente, equiparou-se a CRISTO. Repercussão, como não poderia deixar de ser, no Brasil e no mundo. LULA tem resistido a tudo. Mas, muitas vezes, um pequeno detalhe, que quando acontece passa batido ou causa alguma repercussão, meses depois converte-se numa bomba destruidora e impossível de ser desarmada. Que o diga Fernando Henrique que anos atrás perdeu uma eleição já ganha para JÂNIO por uma frase perdida, ou por sentar-se, antes da hora, na cadeira certa, ou, se preferirem, sentar na cadeira certa na hora errada. Será que desta vez LULA tropeçou de vez? O tempo dirá.
Ao abrir a primeira reunião ministerial, e dentre outras coisas, disse, “eu fico imaginando que muitas vezes nesta mesa aqui parece a Santa Ceia, todo mundo reunido...”. E como não poderia deixar de ser, todos concluíram que naquele momento se equiparava a Cristo, e a pergunta seguinte é quem, dentre não os 12 apóstolos mais os 37 ministros, seria JUDAS? RICARDO NOBLAT em seu Blog comentou, se Judas chamasse Jesus para “compor a chapa do partido, seria para vice”. Já LUIZ ERNESTO BARRETO, em seu blog “A IMPRENSA DE CUYABÁ”, foi mais longe, “Os hospícios estão cheios de gente assim. Notamos que ele (ou seria Ele) está queimando etapas, pois não passou pela incorporação de Napoleão Bonaparte. Dentro do previsível, não se pode estranhar se em ocasião próxima, superada essa fase, resolva o nosso presidente revelar que na verdade é o Pai, criador do céu e da terra, continuando o previsto no manual progressivo freudiano...”.
Depois, na mesma reunião, reclamou que os ministros não falavam entre si, como se ele não tivesse nada a ver com esse absurdo, e muito mais.
De qualquer maneira, e conta a história, todas as vezes que alguém resolve brincar com a Santa Ceia, alguma coisa de ruim acaba acontecendo. No início dos anos 90, o principal dirigente de uma próspera agência de publicidade do Brasil, decidiu fazer um anúncio da agência cujo título era exatamente esse, A SANTA CEIA. E imediatamente, ninguém teve a menor dúvida de quem era, naquela agência, o Cristo. Seus 3 principais apóstolos, não querendo incorporar a figura de Judas, decidiram pegar o chapéu e seguir em frente. Hoje, comandam duas das mais importantes agências em atuação no país. O anúncio que acabou não sendo publicado, seguramente mudou a história de nossa publicidade. Será que mudará a história do país?